“Margarida: Pra Você Lembrar de Mim” volta ao Cariri com apresentação gratuita em Juazeiro do Norte

Obra da multiartista e indígena Kariri Luz Bárbara leva ao Cariri cearense reflexões sobre memória, ancestralidade e resistência feminina

O espetáculo “Margarida: Pra Você Lembrar de Mim” na próxima quinta-feira, 28 de maio, às 18h30, no Teatro Banco do Nordeste Cultural Cariri, em Juazeiro do Norte — CE. A entrada é gratuita e a classificação indicativa é de 12 anos.

A montagem já esteve na região caririense em outubro de 2025, com uma série de dez apresentações em municípios do Ceará. Sete delas aconteceram em Crato e Juazeiro do Norte; outras três, no Sertão de Crateús e Tamboril. Os locais foram escolhidos por terem, em sua grande maioria, comunidades e aldeias com ancestralidade indígena e por serem rurais — características que dialogam diretamente com os objetivos da obra. Agora, o espetáculo retorna ao Cariri de forma pontual, integrado à programação do Banco do Nordeste Cultural.

Quem foi Margarida Maria Alves?

Margarida Maria Alves nasceu em Alagoa Grande (PB) e foi uma sindicalista dos trabalhadores rurais assassinada no agreste paraibano. Trabalhadora rural e líder sindical, moveu mais de 600 ações trabalhistas em 12 anos de mandato, todas ganhas. Lutava por direitos básicos como salário digno, férias, carteira assinada e regulamentação da jornada de trabalho.

Também participou da criação do Movimento de Mulheres do Brejo (MMB), uma das primeiras organizações de mulheres da América Latina. Ao liderar o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Alagoa Grande, enfrentou usineiros, fazendeiros e políticos da região. Em 12 de agosto de 1983, foi assassinada aos 51 anos na porta de casa, diante do marido, do filho e de vizinhos. Quando jovem, Margarida foi expulsa das terras com sua família pelo patrão de seu pai. Esse episódio de injustiça a impulsionou a lutar inicialmente pelos direitos trabalhistas de seu pai e, posteriormente, a ingressar na militância política em defesa de toda a categoria.

A morte de Margarida teve repercussão nacional e internacional, com apoio da Anistia Internacional. Em 2000, durante a primeira Marcha das Margaridas — maior encontro de mulheres da América Latina, realizado a cada quatro anos em Brasília —, houve denúncia contra o Estado brasileiro na Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH). Após anos de tramitação, Margarida foi reconhecida como anistiada política em 2016. Em 2018, a CIDH responsabilizou o Estado Brasileiro pela sua morte. Ela segue sendo homenageada na Marcha das Margaridas desde sua primeira edição.

O espetáculo: teatro, performance e cinema em uma só linguagem

“Margarida: Pra Você Lembrar de Mim” vem sendo construído e revisitado desde 2015 por Luz Bárbara — performer, multiartista, atriz, diretora e roteirista da obra, indígena Kariri paraibana radicada em São Paulo. Com duração de aproximadamente 50 minutos, a peça já passou por cidades como Porto Alegre, Brasília, São Paulo e Crato (CE).

O espetáculo traz uma proposta cênica que rompe fronteiras entre linguagens artísticas. A montagem dialoga com características do teatro documentário, da performance e do cinema expandido, construindo uma dramaturgia audiovisual que mistura narrativa histórica, memória pessoal e intervenção poética.

“É uma performance cênica audiovisual construída com a intenção de dar forma poética à memória de Margarida Maria Alves, uma heroína camponesa paraibana reconhecida mundialmente pela sua luta por terra e por território. No espetáculo, contamos a história de Margarida, entrecruzando com minha narrativa pessoal e a retomada de saberes antigos do meu povo, o povo Kariri.”
— Luz Bárbara

Como o espetáculo reconstrói a memória de Margarida

A dramaturgia do espetáculo conta com sons, manipulação de objetos, interação com o público, abertura de câmera ao vivo e projeções audiovisuais. Esses recursos recontam fatos históricos pouco conhecidos, tornando a memória um elemento palpável e compartilhado com o espectador.

O objetivo estético se potencializa assim: dar forma poética, visual e cênica à memória. O espetáculo reconstrói lembranças entre passado e presente, entre indivíduo e coletividade, revivendo a trajetória de Margarida Maria Alves e evocando a ancestralidade do povo Kariri.

Luz Bárbara: a artista que carrega Margarida de volta para casa

Luz Bárbara dirige e protagoniza o projeto. Natural da Paraíba, migrou para São Paulo, onde fortaleceu sua identidade Kariri e se reconectou com saberes antigos do seu povo. Sua relação com Margarida é de intersecção: migração nordestina, ancestralidade e resistência. Bárbara conta e reconta a história da heroína com respeito e afeto, reacendendo a memória da sindicalista em um retorno simbólico à sua terra e ao seu túmulo.
“Lembrar é resistir.”

Com essa afirmação, a artista destaca que a montagem não apenas homenageia Margarida, mas também reencanta a memória ancestral do povo Kariri e de tantas mulheres do campo.

A dramaturgia publicada: indígenas em cena no Brasil e na América Latina

Em 2023, a obra foi publicada pela N-1 Edições, dentro da Caixa de Dramaturgias Indígenas. O livro reúne 11 dramaturgias de artistas indígenas do Brasil, Chile e Argentina, abordando autoficção e questões contemporâneas como retomada de territórios e identidade de gênero.

Referências e redes

Instagram: @margaridapravoce
YouTube: @margaridapravocelembrardemim
Publicação: Margarida, Pra você Lembrar de Mim – N-1 Edições, 2023, na Caixa de Dramaturgias Indígenas.

Redação Verde Vale Redação Verde Vale

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