Fossil de dinossauro encontrado no Cariri revela vestígios bioquímicos associados a sangue

Um dinossauro que viveu há cerca de 115 milhões de anos no Cariri cearense deixou vestígios que vão além dos seus ossos. Uma pesquisa publicada na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) identificou, em um fóssil do Aratasaurus museunacionali, moléculas derivadas do heme, composto presente na hemoglobina, proteína responsável pelo transporte de oxigênio no sangue.

O estudo também identificou estruturas mineralizadas semelhantes a glóbulos vermelhos. Os resultados ampliam as possibilidades de investigar vestígios biológicos preservados em fósseis e ajudam a compreender o que pode permanecer detectável mesmo depois de milhões de anos.

“Encontrar vestígios bioquímicos associados a componentes biológicos em um fóssil de mais de 100 milhões de anos nos ajuda a ampliar nossa compreensão sobre o que pode ser preservado ao longo do tempo. É uma oportunidade de investigar a história desses animais para além dos ossos e de suas características anatômicas. Uma descoberta de ponta envolvendo cientistas do INCT PALEOVERT – o primeiro dedicado a fósseis de vertebrados que é financiado pelo CNPq”, afirma, Alexander Kellner, pesquisador do Museu Nacional/UFRJ.

A pesquisa conta com a participação de cientistas da Universidade Regional do Cariri (URCA) e do Museu Nacional/Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) além de pesquisadores de outras instituições como a Universidade de Curtin, da Austrália.

Vestígios microscópicos ajudam a investigar a história do fóssil

O heme é um componente da hemoglobina, proteína responsável pelo transporte de oxigênio pelo organismo. Sua identificação no fóssil oferece pistas químicas para investigar a preservação de substâncias associadas à biologia de animais extintos.

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Entre os compostos identificados pelos pesquisadores estão o heme B e uma molécula derivada, denominada 3,8-dietil heme B. A equipe também analisou estruturas microscópicas mineralizadas e comparou os sinais químicos encontrados no osso com os do sedimento que o envolvia.

Essa comparação ajudou a investigar se os compostos identificados estavam associados ao próprio material fossilizado ou ao ambiente em que ele foi preservado.

Os resultados não significam que o fóssil contenha células sanguíneas intactas. As estruturas encontradas são semelhantes a hemácias, como são chamados os glóbulos vermelhos, enquanto as análises químicas apontaram a presença de moléculas derivadas do heme.

A combinação dessas evidências amplia o conhecimento sobre os processos de fossilização e sobre os limites da preservação de vestígios moleculares em materiais tão antigos.

Dinossauro brasileiro já era conhecido pela ciência

QO Aratasaurus museunacionali é um dinossauro do grupo dos terópodes, que inclui diversas espécies de dinossauros carnívoros.

“O esqueleto foi encontrado em 2008 em Santana do Cariri e contribuiu para ampliar o conhecimento sobre os dinossauros que habitaram o Brasil durante o período Cretáceo, colocando novamente os fósseis da nossa região no mapa mundial da paleontologia” ressalta Renan Bantim, da URCA.

A nova pesquisa acrescenta uma dimensão molecular ao estudo desse exemplar. Além de investigar características anatômicas, os cientistas puderam examinar estruturas microscópicas e identificar compostos químicos que ajudam a compreender a história do material fossilizado.

O trabalho reúne especialistas de diferentes áreas, como paleontologia, geologia e química, e evidencia a importância da colaboração entre instituições de pesquisa brasileiras e estrangeiras para investigar questões que exigem diferentes métodos científicos.

“Pesquisas como esta mostram a importância de integrar diferentes áreas do conhecimento para responder a questões complexas sobre a história da vida na Terra. A colaboração entre instituições brasileiras e estrangeiras permite combinar conhecimentos e técnicas para extrair novas informações de materiais que já fazem parte do nosso patrimônio científico”, destaca Antônio Álamo Feitosa Saraiva, da URCA.

“É mais uma demonstração do que a união na pesquisa pode alcançar. E que os cientistas do Museu Nacional, em parceria com pesquisadores de outros centros de pesquisa, têm realizado pesquisas de destaque mundial. O Museu Nacional está mais vivo do que nunca” complementa Juliana Sayão, uma das autoras do artigo e vice-diretora da instituição.

Pedro Paulo Vieira Pedro Paulo Vieira

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